A Realização do Sujeito no Português Brasileiro

by Bruno Oliveira Maroneze
(the text is published on the Orbis Latinus with author's permission)


Resumo: Tomando por base as hipóteses sobre o parâmetro pro-drop, especialmente a que o correlaciona à ausência de morfologia verbal, e a comparação com outras línguas, o autor analisa um corpus diacrônico, procurando mostrar a diminuição do uso do sujeito nulo no Português Brasileiro contemporâneo; analisa também um corpus sincrônico de língua falada, mostrando como diversos fatores (foricidade, pessoa verbal, etc.) se correlacionam ao uso do sujeito realizado vs. o sujeito nulo.

Palavras-chave: parâmetro pro-drop, Português Brasileiro, sintaxe, sujeito

Abstract: Considering the hypotheses about the pro-drop parameter, mainly the one who correlates it to the absence of verbal morphology, and also considering linguistic comparison, the author analyses a diachronic corpus, showing the progressive reduction in the usage of null subjects in contemporary Brazilian Portuguese; he also analyses a synchronic spoken corpus, showing how some groups of factors (phoricity, verb person, etc.) correlate themselves to the usage of null vs. expressed subjects.

Keywords: pro-drop parameter, Brazilian Portuguese, syntax, subject
 

INTRODUÇÃO

1. O problema do sujeito nulo

Um dos temas que mais se tem discutido na atualidade, dentro das mais variadas posturas teóricas, é o problema da realização do sujeito. As línguas do mundo, quanto a esta característica, dividem-se em dois grupos: as que permitem a não-realização do sujeito (o chamado "sujeito nulo"), e as que exigem o sujeito realizado. Entre as primeiras estão as línguas germânicas, como o inglês:

(1a) I am a student
Eu ser-1sg um estudante
Eu sou um estudante
(1b) * Am a student
As línguas românicas (1) permitem a não-realização do sujeito. Tomemos como exemplo o italiano:
(2a) Sono uno studente
ser-1sg um estudante
Sou um estudante
(2b) Io sono uno studente
Eu ser-1sg um estudante
Este fenômeno é conhecido como o "parâmetro pro-drop": as línguas que permitem a não-realização do sujeito são conhecidas como "línguas não-pro-drop".

A explicação em geral aceita para este fato é a impossibilidade de se recuperar o sujeito através da flexão verbal, no caso das línguas não-pro-drop. Ao compararmos o paradigma verbal do inglês com o do italiano, percebemos que o italiano possui uma forma para cada pessoa verbal, enquanto que o inglês distingue apenas a terceira pessoa do singular (no presente do indicativo; no perfeito, não há nem mesmo esta distinção):

Entretanto, essa explicação é contestada por algumas línguas que apresentam morfologia verbal rica e não permitem o sujeito nulo, e por outras línguas que não apresentam morfologia verbal, porém permitem o apagamento do sujeito. Tais fatos têm merecido diversas análises no quadro teórico da Gramática Gerativa.

Não podemos deixar de considerar também línguas que parecem estar num "estágio intermediário": permitem o sujeito nulo apenas em alguns contextos. É o caso do francês medieval e do vêneto renascentista, citados em Roberts (1993, p. 415).

Em seguida, faremos algumas considerações a respeito da definição de sujeito, e da conceituação do chamado "sujeito nulo". Posteriormente consideraremos o problema do português brasileiro.
 

2. O sujeito

"O Visconde raptou um ditonguinho"

Quindim explicou:

- Esta frase é uma Oração que leva na frente o chefe da família, ou o sujeito; depois dele vem um predicado.

- Quer dizer - indagou Narizinho - que em cada Oração há sempre um chefe, que é o Sujeito, seguido por um Predicado?

- Sim. Eles são chamados os termos essenciais da oração. O sujeito dirige tudo, faz e desfaz, manda e desmanda. Quando você diz Tia Nastácia faz bolinhos muito gostosos, o sujeito é Tia Nastácia - e está claro que sem esse Sujeito, adeus bolinhos! O Sujeito é sempre um Substantivo, ou frase que corresponda a um Substantivo.

(…)

- Muito bem - continuou Quindim, (…). - Sujeito é isso. Vamos ver agora quem sabe o que é Predicado.

Ninguém sabia.

- Predicado - explicou ele - é o que se diz do sujeito.

- Mas o que se diz do Sujeito está no Verbo, lembrou o menino. Na frase: O gato comeu o rato, o que se diz do Sujeito gato é que comeu o rato.

- Pois é isso mesmo - confirmou Quindim. - O Predicado está dentro do Verbo (…) LOBATO, 1987.

O texto de Lobato é exemplar, pois por meio da história infantil define e exemplifica o sujeito, o predicado, os termos de oração, etc. Porém, ao fazê-lo, Lobato cristaliza algumas informações e noções que podemos considerar precárias, para não dizer errôneas. Entretanto, as informações contidas nesse texto seguem as normas da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), como pode-se ver em Nascentes (1946, p. 186):
Sujeito - Ser de que se afirma alguma coisa.
Recolhemos diversas outras definições, de gramáticos tradicionais e de textos didáticos, que em geral seguem a NGB. Vejamos as de alguns gramáticos: Os autores citados acima são considerados os melhores gramáticos da língua portuguesa do Brasil e, mesmo assim, apresentam definições equivocadas. Todos eles confundem sujeito com tópico, o que são coisas diferentes.

Aqui abrimos um parêntese para fazer uma pequena definição do que seja tópico. Se buscarmos em Zélio Jota (1976) veremos que tópico é:

Constituinte imediato que explicita a pessoa ou cousa sobre que se acrescenta algo (o comentário). Embora tal ocorra com freqüência, o tópico nem sempre coincide necessariamente com o sujeito (nem o comentário com o predicado).
Como se pode perceber, a noção de tópico é discursiva, enquanto que a de sujeito é sintática.

Estas mesmas definições são copiadas nos livros didáticos. Vejamos alguns:

  1. Faraco e Moura (1994, p. 113):

  2. Sujeito é o termo que denota o ser a respeito de quem ou de que se faz uma declaração
  3. Cegalla (1977, p. 214):

  4. 1- Sujeito é o ser de quem se diz alguma coisa.
    2-O sujeito é constituído por um substantivo ou pronome, ou por uma palavra ou expressão substantiva.
    3-O núcleo (isto é, a palavra base) do sujeito é, pois, um substantivo ou um pronome.
  5. Artur Torres (1967, p. 185):

  6. Sujeito é o ser de quem se declara alguma coisa.
  7. Ernani Terra (1996, p. 203):

  8. Num enunciado completo, sempre nos é dada uma informação a respeito de alguém ou de alguma coisa.
    O elemento a respeito do qual se informa algo denomina-se sujeito. A informação propriamente dita recebe o nome de predicado.
    (...)
    Em síntese,
    Sujeito = é o elemento da oração sobre o qual se emite uma informação.
  9. Mauro Ferreira (1992, pp. 200-9):

  10. "Sujeito é o termo da oração a respeito do qual se declara alguma coisa."
    Em português, em geral, uma oração é constituído por duas partes. Uma delas é o sujeito e a outra é tudo aquilo que se diz do sujeito: o predicado.
    (…) Na oração, o sujeito pode aparecer antes ou depois do verbo.
    Ordem direta: quando o sujeito vem antes do verbo.
    Ordem indireta: quando o sujeito vem depois do verbo.
    Características:
    1. O sujeito, em geral, pode ser substituído por um dos seguintes pronomes: ele, ela, eles, elas.
    2. O sujeito faz o verbo concordar com ele.
O problema que essas definições apresentam é uma questão de inadequação e imprecisão. Inadequação por não se referir a sujeito, mas muitas vezes a tópico, como já foi dito anteriormente; e imprecisão por não conseguir descrever suficientemente todos os fenômenos que ocorrem com o sujeito.

Julgamos mais adequada a conceituação de sujeito dada por Mira Mateus (1983, p. 224), que é a definição assumida pela Gramática Gerativa: "(…) função sintáctica do constituinte que ocorre como argumento externo do predicador (…)".

Essa definição parece ser precisa e coerente, embora complexa, pois trabalha com os conceitos de constituinte, predicador, e argumento externo. Uma definição mais simples pode ser encontrada em Perini (1989, p. 73, repetida em 1998, p. 77):

(…) O sujeito se define, pois, como "o termo da oração que está em relação de concordância com o NdP".
Para Perini, portanto, o sujeito é o termo que concorda com o verbo (NdP). Esta definição não mistura conceitos semânticos ou discursivos com conceitos sintáticos, porém coloca dois problemas (apontados pelo próprio autor): sentenças com verbo não-flexionado e sentenças com sujeito nulo. No primeiro caso, o autor (em Perini, 1998, p. 78-9) argumenta que o substantivo Marivânia em
Marivânia chegando, a farra vai começar.
deve ser analisada como sujeito. Entretanto, nas duas obras citadas (Perini, 1989 e Perini, 1998), o autor argumenta que sentenças do tipo
Vendi meu jegue.
Devem ser analisadas como não tendo sujeito, o que nos parece equivocado. Passemos, portanto, à conceituação de sujeito nulo.

3. O sujeito nulo

É muito difícil encontrar definições de sujeito nulo, porque a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) não se refere a esta classificação. Nas gramáticas antigas, como a de Eduardo Carlos Pereira (1909, pp. 159-60), encontramos a seguinte definição:

(...) occulto ou subentendido, quando não sendo enunciado, facilmente se subentende.
Mauro Ferreira (1992, p. 208) define da seguinte forma:
O sujeito determinado oculto (ou elíptico), apesar de não estar escrito na oração, pode ser reconhecido pela terminação do verbo ou pelo contexto em que a oração aparece.
Este autor é um dos poucos que trazem a observação de que a NGB não se refere a esse tipo de sujeito.

O professor Silvio Edmundo Elia (1962, p. 184), nas definições de sujeito, lembra que "o sujeito subentendido é o que foi pensado, mas não foi enunciado. Pode estar somente no espírito de quem se exprime (elíptico) ou ter sido enunciado em outra oração (zeugma)."

Cegalla (1977, p. 215), apenas enumera as classificações de sujeito, entre elas a de oculto (elíptico), sem, no entanto, defini-la.

Celso Pedro Luft (1974, p. 25) dá uma definição bastante coerente:

(...) (falta na NGB) Elíptico, ou oculto, quando suprimido por elipse, subentendido, recuperável na desinência verbal ou no contexto: Leio poesia, escreves cartas, enviamos felicitações, chegaste cedo.
Apesar de os autores em geral concordarem com o fato de que uma sentença do tipo li este livro tenha um sujeito nulo (ou "oculto"), Mário Perini (1998, p. 78) analisa tal sentença como não tendo sujeito. Entretanto, o autor é forçado a postular uma categoria semântica, que ele chama de "sujeito vazio": a desinência de pessoa e número funcionaria como um "sujeito pronominal", em que as regras semânticas se aplicariam. Esta análise é interessante e coerente, desde que se entenda o "sujeito" como uma categoria sintática. Nesse raciocínio, poder-se-ia explicar a tendência do português brasileiro a realizar o sujeito (ver item 4, a seguir), como devida à perda da informação que a desinência verbal carrega. Limitando-nos a apontar o problema, preferimos adotar aqui a análise tradicional, de que tais sentenças teriam uma categoria vazia, chamada de "sujeito nulo".

4. O problema do português brasileiro

No português brasileiro (PB), o paradigma flexional verbal vem sofrendo alterações, devido principalmente à substituição dos pronomes de 2.ª pessoa (tu e vós) pelo pronome dito de tratamento você(s), já consolidada, além da mais recente substituição do pronome de 1.ª pessoa do plural nós pela expressão a gente. Como estas formas levam o verbo para a terceira pessoa (no caso do plural vocês, para a terceira pessoa do plural), o paradigma verbal do português brasileiro fica da seguinte forma:
 
Presente do indicativo  Imperfeito do indicativo
 
Eu canto
Você canta
Ele canta
A gente canta
Vocês cantam
Eles cantam
 
Eu cantava
Você cantava
Ele cantava
A gente cantava
Vocês cantavam
Eles cantavam
Os demais tempos verbais se comportam de forma semelhante. Vale lembrar que a forma a gente ainda concorre com antigo pronome nós.

Como podemos perceber, o paradigma verbal do PB fica reduzido a três ou duas formas (dependendo do tempo verbal), diferentes no morfema de número e pessoa. A forma da terceira pessoa do plural por vezes também se reduz a -a, na fala popular e coloquial, contribuindo também para reduzir o número de desinências.

Trabalhos recentes vêm apontando correlações entre esta mudança do paradigma e o uso cada vez menor de sujeitos nulos no PB. Destacamos o trabalho de Duarte (1993), que analisa peças de teatro populares dos séculos XIX e XX, mostrando que está ocorrendo uma mudança no PB, no sentido de não mais permitir o sujeito nulo.

Procuramos no presente trabalho analisar os fatores relacionados à realização ou ao apagamento do sujeito, tendo em vista a redução da riqueza morfológica verbal e a possível mudança em progresso no PB. Nossa análise consistirá de duas partes: na primeira, analisaremos a realização do sujeito de um ponto de vista diacrônico, procurando mostrar diferenças quanto a este fenômeno entre o português medieval e o português brasileiro moderno. Na segunda parte, analisaremos o fenômeno sob um enfoque sincrônico, procurando detectar que fatores se correlacionam à realização/não-realização do sujeito.

5. Constituição do corpus

A constituição do corpus é um problema metodológico que se apresenta em qualquer tipo de trabalho lingüístico. Por mais que se tente utilizar um corpus amplo e diversificado, este nunca representará de fato a totalidade da língua. É preciso sempre levar em conta que os resultados conseguidos com diferentes corpora podem divergir incrivelmente.

Escolhemos dois corpora distintos, um para cada parte do trabalho. Na primeira parte, para mostrarmos as diferenças entre o português medieval e o PB contemporâneo, analisamos dois textos medievais, o Testamento de D. Afonso II e a Crônica Geral de Espanha; comparamos estes textos com as Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, representativas da primeira metade do século XX, e algumas crônicas representativas da segunda metade do século XX, extraídas do Corpus diacrônico do português, organizado por F. Tarallo. Extraímos 260 sentenças do corpus medieval, 212 das Cartas de Mário de Andrade e 187 das crônicas.

Um primeiro problema já se apresenta: a utilização de textos de língua escrita. No caso do português medieval, não é possível, evidentemente, proceder de outra forma; mas no caso do PB moderno, sem dúvida haverá problemas na análise. A língua escrita, por ser mais conservadora, provavelmente favorecerá o uso do sujeito nulo, mesmo em se tratando de cartas pessoais e de crônicas. Talvez os resultados fossem outros se tivéssemos usado peças de teatro populares, por exemplo.

Um segundo problema refere-se à quantidade de textos. O fato de utilizarmos apenas textos de Mário de Andrade, por exemplo, como representativos da primeira metade do século XX, pode falsear a análise, porque estaremos analisando não a língua de determinado período, mas a língua de determinado autor. Se se deseja trabalhar com textos escritos, o ideal seria escolher autores variados.

Um terceiro problema pode ser apontado: o dos gêneros dos textos. Nosso corpus não está uniformizado quanto a isso: a Crônica Geral e as crônicas do século XX são textos narrativos, enquanto que as Cartas de Mário de Andrade representam o gênero epistolar, e o Testamento de D. Afonso II é um documento notarial. O gênero epistolar favorece o uso da primeira pessoa, enquanto que o contrário ocorre com a Crônica Geral, pois esta não contém nem mesmo diálogos.

Para a análise sincrônica, utilizamos um corpus constituído por gravações de entrevistas televisivas. Foram gravadas entrevistas com pessoas de três faixas etárias (até 25 anos; entre 30 e 45 anos; acima de 50 anos); para cada faixa etária, foram gravadas entrevistas com pessoas de ambos os sexos. No total, foram recolhidas 1228 sentenças.

Há principalmente dois problemas que devem ser apontados quanto a este segundo corpus: mesmo tendo a vantagem de ser representativo de língua falada, o contexto de uma entrevista televisiva acaba forçando a utilização de determinados padrões de língua. Além disso, o mesmo problema que foi apontado no corpus escrito pode ser apontado aqui também: a quantidade de informantes. Se se deseja testar fatores como gênero e idade, não é recomendável trabalhar com apenas um ou dois informantes de cada um dos gêneros e faixas etárias.

Apesar de todos os problemas apontados, esperamos que o corpus utilizado seja suficiente para as análises que desejamos traçar. Desde já esperamos que surjam diversos problemas durante a análise que provavelmente seriam esclarecidos se um outro corpus fosse utilizado.

6. Hipóteses a serem verificadas

Como foi mostrado acima, no item 4, tem-se apontado que a uniformização do paradigma verbal no PB está conduzindo esta língua a um estágio em que o sujeito passará a ser obrigatório. Portanto, o primeiro fenômeno que esperamos é que o corpus representativo do século XX deverá apresentar significativamente mais sujeitos realizados que o corpus medieval.

A flexão de número e pessoa é outro fator que deve ser levado em conta, já que a hipótese é justamente que a perda das distinções morfológicas de pessoa conduz a maior realização do sujeito. Nesse aspecto, podemos supor que, se de fato o PB se tornar no futuro uma língua não-pro-drop, é provável que passe por um estágio intermediário, que permita o sujeito nulo apenas em alguns contextos, como mostra Roberts (1993, p. 415, citado acima). Tais contextos seriam condicionados principalmente pela marca de flexão verbal.

Uma língua românica que possui um sistema peculiar de flexão verbal é o vêneto, falado no nordeste da Itália. Nesta língua, na terceira pessoa é marcada com uma espécie de prefixo verbal, resquício de um antigo sujeito (2):

(3) ? Marco gà magnà un fià de pan
Marco tem (aux.) comido um pouco de pão
Marco comeu um pouco de pão
(4) Marco ‘(e)l gà magnà un fià de pan
Marco ele tem (aux.) comido um pouco de pão
Marco comeu um pouco de pão
(5) * Gà magnà un fià de pan
Esta sentença não é aceitável nem mesmo num contexto anafórico. Para se ter uma sentença gramatical, é preciso colocar um "pronome átono":
(6) El gà magnà un fià de pan
Já esta sentença é aceitável num contexto anafórico (como o português "Comeu um pouco de pão"). Se se quer dizer "Ele comeu um pouco de pão", deve-se usar o pronome tônico:
(7) >u    (e)l gà    magnà    un fià    de pan
ele (tônico) ele   tem comido um pouco de pão
Ele comeu um pouco de pão
O "pronome átono" (chamado de sujeito clítico) el é sentido pelos falantes como sendo parte do verbo, porque a terceira pessoa do singular, em vêneto, não se distingue da terceira do plural nem da segunda do singular; nessas outras duas pessoas, também há um "pronome átono" que indica a flexão do verbo:
(8) (Ti) ti gà magnà un fià de pan
tu (tônico) tu tens comido um pouco de pão
Tu comeste um pouco de pão
(O primeiro ti pode ser omitido.)
(9) Marco e Fabio i gà magnà un fià de pan
Marco e Fabio eles têm comido um pouco de pão
Marco e Fabio comeram um pouco de pão
Não dispomos de dados diacrônicos do vêneto, mas aparentemente, o que ocorreu foi o seguinte: com a perda da distinção morfológica de certas pessoas verbais, o pronome pessoal passou a ser obrigatório apenas nessas pessoas; em seguida, houve uma reanálise das sentenças topicalizadas: o tópico, que era retomado no interior da sentença pelo pronome pessoal (obrigatório), foi reanalisado como sujeito; o pronome tornou-se átono e foi reanalisado como marca de flexão verbal. Com isso, o vêneto "esquivou-se" de se tornar uma língua não-pro-drop: apenas passou a marcar a flexão do verbo com prefixos ao invés de sufixos. A prova disso é que, na segunda pessoa do singular, é possível omitir o pronome tônico, mas não o átono, pois este é a própria desinência verbal.

Se for confirmada a hipótese de que o PB permite (ou passará a permitir) apenas sujeitos nulos em determinadas pessoas, será necessário realizar estudos sobre uma construção que cada vez mais vem ocorrendo no PB: a topicalização do sujeito:

(10) O Marco, ele comeu um pouco de pão
Na língua falada, praticamente não se ouve mais uma pausa entre o tópico e o sujeito. Além disso, a redução fônica do pronome você para e a cliticização desta forma nos levam à seguinte pergunta: estaria o PB caminhando na direção do vêneto, no sentido de passar a marcar a flexão verbal com sujeitos clíticos antepostos ao verbo? Para responder a esta pergunta, serão necessários mais estudos históricos e comparativos.

Além deste estudo diacrônico, propomo-nos a fazer um estudo sincrônico, analisando em primeiro lugar fatores extralingüísticos: gênero, idade e cuidado com a fala. Procuraremos verificar se os falantes tendem a realizar menos os sujeitos quando estão prestando atenção ao seu discurso, e se as mulheres, como em geral se tem demonstrado, também nesse aspecto são mais conservadoras (ou seja, realizam menos os sujeitos). O fator idade pode vir a corroborar a análise diacrônica, se comprovarmos que os falantes mais velhos tendem a anular mais o sujeito.

Entre os fatores lingüísticos, testamos a realização do sujeito em relação a fatores morfológicos, sintáticos, semânticos e discursivos. Como fatores morfológicos, escolhemos a pessoa e o tempo verbais, pelo motivo mostrado acima: os falantes tenderiam a realizar mais o sujeito quando a flexão verbal estivesse empobrecida.

Sintaticamente, verificamos se o tipo de sentença em que o sujeito aparece influi em sua realização. É sabido, por exemplo, que as sentenças coordenadas cujo sujeito é co-referente da sentença anterior favorecem a não-realização do sujeito, mesmo em línguas não-pro-drop, como mostra este exemplo do inglês:

(11) He bought the book and [pro] read it twice
onde [pro] indica o sujeito não-realizado.

O maior problema que vemos neste caso é que há diferentes tipos de coordenadas, e é bem provável que nem todos facilitem tanto assim o apagamento do sujeito. O mesmo se pode verificar nas sentenças subordinadas. Em nossa análise, consideramos apenas as sentenças subordinadas/coordenadas em que o sujeito é co-referente ao sujeito da sentença principal (ou da sentença anterior, no caso das coordenadas); caso contrário consideramos a sentença como "principal".

Como fatores semânticos, analisamos em primeiro lugar a animacidade do sujeito. Evidentemente, como os pronomes de primeira e segunda pessoas sempre se referirão a seres animados, apenas os sujeitos de terceira pessoa serão considerados.

Um segundo fator semântico (ou mais precisamente, sintático-semântico) que consideramos é o papel temático atribuído pelo predicado ao sujeito. Enfrentamos certa dificuldade para saber que papéis considerar, já que os próprios autores divergem quanto a isso. Optamos por diferenciar paciente de tema: consideramos pacientes em geral os sujeitos de voz passiva, e temas os sujeitos de predicados atributivos (do tipo O João é alto). Também utilizamos em nossa análise o papel temático possuidor, atribuído por predicados de posse (do tipo João tem dinheiro, este carro é do João, etc.).

Como fatores discursivos, optamos por considerar em primeiro lugar a pessoa do discurso, independentemente da pessoa verbal. Espera-se que o sujeito seja menos realizado na primeira e segunda pessoas, porque estas são recuperadas na situação pragmática da conversação. Em segundo lugar, verificamos se a foricidade influi na realização do sujeito: se o referente do sujeito já foi explicitado (ou seja, se o sujeito for anafórico), é provável que o sujeito não seja pronunciado (ou pelo menos não seja enunciado lexicalmente). Evidentemente, neste fator não consideramos os dados de primeira e segunda pessoas, pois estas nunca se referem a expressões já enunciadas no discurso.
 

PRIMEIRA PARTE:
A DIACRONIA DA REALIZAÇÃO DO SUJEITO

1. A inadequação do corpus

Como foi dito no item 5 da Introdução, foram extraídas 260 sentenças do português medieval, 212 da primeira metade do séc. XX, e 187 da segunda metade. Depois de tabulados os dados, passamos ao cálculo de tabelas e porcentagens, com o auxílio de softwares estatísticos. O primeiro fato que nos causou estranheza foi um "empate técnico" entre as porcentagens de sujeitos nulos nos três períodos: todas ficaram em torno dos 56%. Este fato vai radicalmente contra a primeira hipótese, a de que haveria mais sujeitos nulos no português medieval, e que este número decairia progressivamente até o final do século XX. Entretanto, revendo os dados, percebemos tratar-se de um problema em relação ao corpus escolhido: nas cartas de Mário de Andrade o autor evita em geral o sujeito realizado, principalmente na primeira pessoa:

(...) e [pro] acabei lhe emprestando o meu.

([pro] me esqueci do nome dele agora)

Ao compararmos estes dados com o corpus de língua falada utilizado para a Segunda Parte deste trabalho, percebemos que de fato a língua escrita é muito mais conservadora: os resultados foram 33% de sujeitos nulos vs. 67% de sujeitos realizados.

2. A questão da pessoa verbal (3)

Entretanto, se levarmos em conta apenas a terceira pessoa (do singular e do plural), a diferença se mostra significativa: 56% de sujeitos nulos no português medieval contra aproximadamente 35% em cada um dos períodos analisados do séc. XX. O português medieval, portanto, anulava mais que o atual os sujeitos de terceira pessoa, como mostra o seguinte exemplo:

(…) levantou-sse em Spanha huu) peon que avya nome Viaraço (…). E [pro] fora pastor de gaado (…). E huu) te)po [pro] fora teedor de camynhos.
O português moderno dificilmente construiria sentenças assim. A tendência é realizar o sujeito como um pronome anafórico:
(…) não seria melhor abandonar duma vez êsses sonetos indiscretos? Repare que talvez eles tambem pertençam um bocado àquele "rúim exquisito" (…)
e não
(…) que talvez [pro] tambem pertençam (…).
Portanto, visto que os sujeitos de segunda pessoa mostraram-se irrelevantes (4), os dados que falsearam nossa análise inicial foram os de primeira pessoa. Isso confirma de certo modo as expectativas, porque em geral é a primeira pessoa (tanto do singular quanto do plural) que é a mais marcada; Duarte (1993, p. 119) aponta esta pessoa como um contexto de resistência do apagamento do sujeito.

3. As marcas de flexão

Evidentemente, no PB moderno, evita-se apagar o sujeito de terceira pessoa principalmente porque ele pode ser confundido com o da "segunda pessoa" do discurso (você, vocês), e mais modernamente, com o da "primeira pessoa do plural" do discurso (a gente), como já foi tratado na Introdução. Entretanto, em determinados tempos verbais, a primeira pessoa também se confunde com a terceira: indic. imperf. eu/ele cantava, subj. imperf. eu/ele cantasse, subj. fut. eu/ele cantar; há também casos em que, dependendo do verbo, a confusão se dá mesmo em tempos onde normalmente haveria formas diferentes: indic. perf. eu/ele trouxe; há ainda outros casos em que as formas de terceira pessoa do singular e do plural se confundem (a escrita constrói, um tanto artificialmente, maneiras de distinguir): indic. pres. ele/eles tem/têm. Para dar conta destes fatos, seria muito complicado organizar tabelas com pessoa, tempo verbal e ainda o tipo do verbo, e cruzá-las. Optamos por criar um novo grupo de fatores, onde marcamos "-" para as formas de terceira pessoa do singular (e formas idênticas a esta), e "+" para as demais.

Este novo critério confirma também as hipóteses: a flexão não-marcada ("-"), nos três períodos, favorece a realização do sujeito. Entretanto (mas como também já se esperava), no período medieval este favorecimento não é tão grande assim: há apenas 52% de sujeitos realizados com a flexão do verbo não-marcada, enquanto que nos outros dois períodos as porcentagens são maiores, em torno de 64% de sujeitos realizados. Isso talvez mostre que no português medieval o sujeito não dependesse tanto da flexão verbal para ser realizado; mas a quantidade ínfima de sujeitos de segunda pessoa talvez esteja falseando nossa análise.

4. Conclusão da primeira parte

Como conclusão parcial podemos perceber que de fato a língua portuguesa passou por uma mudança no sentido de evitar o sujeito nulo de terceira pessoa. Uma análise mais refinada teria que utilizar corpora de diferentes períodos intermediários (séculos XV, XVII, XIX, por exemplo), inclusive para abordar a mudança do paradigma verbal (apontada na Introdução).

Também fica claro que não há grandes diferenças entre a primeira e a segunda metades do século XX, pelo menos não no corpus utilizado. Por fim, é importante notar que, pelo menos no registro escrito, a primeira pessoa ainda resiste como um contexto de não-realização do sujeito.
 

SEGUNDA PARTE:
O QUE LEVA O FALANTE A REALIZAR O SUJEITO?

1. Fatores extralingüísticos

Como já explicado na Introdução, os fatores extralingüísticos levados em consideração foram gênero, idade e cuidado com a fala. Os três fatores não se mostraram conforme as expectativas. Como podemos ver no gráfico abaixo, o fator idade, ao invés de mostrar uma mudança em tempo aparente, acabou por mostrar um fenômeno estável:

O fator gênero não mostrou, como esperávamos, que os homens realizam mais o sujeito. Pelo contrário, os dados indicaram 71% de sujeitos realizados nas falas das mulheres, e 60% nas falas dos homens.

No entanto, o fator cuidado com a fala mostrou certa diferença em relação ao sujeito realizado: aparentemente, um maior cuidado com a fala favorece o sujeito lexicalmente realizado em detrimento do pronominal. Isso pode ser explicado porque, em situações onde o falante está se preocupando com sua fala, ele procura especificar mais as informações para o interlocutor; nesse caso, os sujeitos lexicais acabam sendo mais claros que os pronominais.

Se esta nossa análise estiver correta, isso significa que a mudança já teria ocorrido (como mostramos na Primeira Parte), e atualmente o fenômeno da realização do sujeito estaria em variação estável. Entretanto, como apontamos na Introdução, os problemas referentes à constituição do corpus podem estar mascarando os dados.

2. O tempo verbal

O tempo verbal influiria na realização do sujeito, independentemente da flexão? Foi-nos difícil responder a esta pergunta, justamente por ser difícil desvincular o tempo da pessoa verbal. O único caso que indubitavelmente influi na realização do sujeito é o imperativo: apenas uma sentença do corpus apareceu com sujeito realizado no imperativo:

você veja aí a relutância dos homens
É interessante notar que o imperativo é um contexto universal para o apagamento do sujeito: em muitas línguas não-pro-drop, o que marca a sentença imperativa é justamente a ausência do sujeito, como no inglês:
(12) Eat your meat
comer 2.ª pes. POSS comida
Coma sua comida
Parece-nos que a pergunta que deve ser feita é o contrário: por que o PB permite construções imperativas com sujeito realizado (ainda que raras)? Esta pergunta ainda está sem resposta.

Nos três tempos verbais que mais apareceram no corpus (presente, perfeito e imperfeito do indicativo), o sujeito mostrou-se mais realizado (as porcentagens foram de aproximadamente 67% de realização vs. 33% de apagamento, nos três tempos verbais). Não julgamos que tal fato seja significativo, dada a tendência geral detectada no corpus para o apagamento do sujeito, além do fato de que estas porcentagens coincidem com as porcentagens totais de sujeitos nulos/realizados.

3. A pessoa verbal

A pessoa verbal, muito mais que o tempo, influencia na realização do sujeito, pelos motivos já apontados na Introdução. O corpus não apresentou nenhuma ocorrência de segunda pessoa verbal, com exceção das formas do imperativo:

olha minha mãe [pro] me perdoa
o mãe, [pro] tem uma grana pra me emprestá
[pro] num fala isso
De fato, estas são as únicas formas de segunda pessoa que ainda sobrevivem no PB falado contemporâneo. Por serem imperativas, todas apresentaram o sujeito nulo (ver item 2 desta Segunda Parte, acima).

Desconsiderada a segunda pessoa, a primeira e a terceira apresentaram porcentagens equilibradas, e também de acordo com a tendência geral mostrada no corpus: em torno de 33% de sujeitos nulos vs. 67% de sujeitos realizados. Isso surpreende um pouco, pois na primeira pessoa esperava-se maior tendência à não-realização. Percebeu-se também que na terceira pessoa houve um equilíbrio entre sujeitos pronominais e lexicais.

Ao diferenciarmos o número (1.ª pessoa do singular / 1.ª pessoa do plural, 3.ª pessoa do singular / 3.ª pessoa do plural), percebemos diferenças significantes. Em primeiro lugar, a primeira pessoa do plural mostrou uma ligeira tendência ao apagamento do sujeito (57% nulos vs. 43% realizados), provavelmente por esta forma ser a mais marcada dentre as pessoas verbais, e também por aparecer num número relativamente pequeno de dados (os falantes preferem em geral a forma de terceira pessoa a gente). Em segundo lugar, a terceira pessoa do plural mostrou um equilíbrio maior do que a terceira do singular (42% nulos vs. 58% realizados), devido ao uso mais freqüente do pronome você no singular, que pesou na contagem (ver o cruzamento de pessoa verbal com pessoa do discurso, abaixo).

4. O tipo de sentença

Os diferentes tipos de sentenças mostraram porcentagens coincidentes com a tendência geral mostrada no corpus, com a exceção (esperada) das sentenças coordenadas com sujeito co-referente ao da sentença anterior, onde a porcentagem praticamente se inverteu: 72% de sujeitos nulos vs. 28% de sujeitos realizados. Ao observar tais dados, ficamos com a impressão de que eles falsearam a análise dos demais: se tivessem sido desconsiderados logo no início, como fez Duarte (1993), as porcentagens de sujeitos nulos iam ser bem maiores. Entretanto, intrigamo-nos com os 28% de sujeitos realizados (todos pronominais, correspondendo a 36 sentenças, em sua maioria na primeira pessoa). Analisemos alguns casos em particular:

eu ando muito no Brasil e eu vejo as perspectivas extraordinárias
mas eu acho que eu tô fazendo a banheira e eu não tô passando essa imagem
Casos como estes correspondem à maioria destes 36 casos: um sujeito de primeira pessoa, realizado numa coordenada aditiva, e co-referencial a um sujeito realizado na sentença anterior. Seria este um contexto de realização do sujeito nas coordenadas, contrariando a tendência de anulá-lo? Estaria o tempo (presente do indicativo, presente em 11 destes 36 casos) desempenhando um papel importante? Acreditamos que sim, se compararmos novamente a estruturas possíveis em uma língua não-pro-drop, como o inglês (5):
(13) I travel very much and I see wonderful things
(14) ? I travel very much and see wonderful things
(parece-nos que esta sentença é aceitável, porém menos comum)

No passado, parece que a aceitabilidade de tal sentença é maior:

(15) I travelled very much and saw wonderful things
Curiosamente, as sentenças coordenadas em que houve apagamento do sujeito mostraram uma predominância dos tempos passados: de 92, 59 estão no passado (perfeito ou imperfeito), e apenas 24 no presente, como mostram os exemplos:
mas de repente eu parei com tudo e [pro] recebi esse convite pra fazer esse trabalho
ela achô uma daquelas e [pro] amarrô.
5. Animacidade

Quanto à animacidade, não houve grandes conclusões, apenas que o sujeito animado tende ligeiramente a ser mais realizado (64% de sujeitos animados realizados vs. 59% de sujeitos inanimados realizados). Entretanto, temos resultados diferentes quando comparamos sujeitos pronominais com lexicais: os lexicais tendem a ser mais realizados quando inanimados (36% de sujeitos lexicais animados vs. 42% de sujeitos lexicais inanimados).

6. Papel temático

O papel temático refere-se à função semântica do sujeito, atribuída a ele pelo predicado. Em geral, o sujeito recebe o papel temático de agente; em segundo e terceiro lugares, em nosso corpus, predominaram os papéis temáticos tema (principalmente em sentenças atributivas) e experienciador. Destes, aparentemente, apenas se mostrou relevante o último, que apresentou 25% de sujeitos nulos e 75% de sujeitos realizados, o que aponta para uma tendência maior à realização do sujeito se este for experienciador. Entretanto, o grande número de ocorrências do tipo

eu acho eu acho que eu não cheguei a vestir nenhuma
eu acho que eles são assim
somado a um predomínio de verbos do tipo pensar, saber, etc. no corpus, pode ter enviesado os dados.

7. Pessoa do discurso

As três pessoas do discurso mostraram dados equilibrados com a tendência geral do corpus. Evidentemente, os sujeitos lexicais somente apareceram na terceira pessoa. Entretanto, o cruzamento deste fator com a pessoa verbal deu resultados interessantes.

Em primeiro lugar, notamos que em apenas um caso houve sujeito nulo com o pronome a gente (primeira pessoa do discurso mas terceira pessoa verbal):

a gente se sente despolitizado, [pro] se sente --- desunido como geração
Explica-se este caso facilmente, lembrando o fato de que as coordenadas favorecem amplamente o sujeito nulo.

Em segundo lugar, a forma vocês ocorreu em apenas dois casos no corpus (um deles nulo):

falei: e vocês são forte no quê? ele falô: em tequila
então aí falaram: as três Jorge aí [pro] pode sair da sala que o pai não pagô a mensalidade
(Este segundo caso foi analisado como tendo um sujeito nulo vocês, sem a concordância verbal padrão; mas poderia ter sido analisado também como tendo o sujeito realizado lexicalmente as três Jorge aí.)

O corpus utilizado, por ser em geral constituído de entrevistas entre duas pessoas, favorece o uso dos pronomes de segunda pessoa no singular; os dois exemplos citados acima correspondem a relatos, e não a situações reais de diálogo.

8. Foricidade

Estamos chamando de foricidade o fato de ser o sujeito (seja lexical, seja pronominal ou nulo) anafórico ou não. Notamos logo de início que o sujeito anafórico contraria a tendência geral do corpus, mostrando um equilíbrio (50% de cada caso) entre sujeitos realizados e nulos, na terceira pessoa. (6) Também como se esperava, o sujeito não-anafórico é muito mais realizado lexicalmente do que pronominalmente (70% de sujeitos não-anafóricos lexicais vs. 20% de sujeitos não-anafóricos nulos vs. 10% de sujeitos não-anafóricos pronominais). Os casos de sujeitos nulos e pronominais não-anafóricos foram em geral ocorrências de catáfora, como o exemplo abaixo:

aos trinta e um anos [pro] faliu seu primeiro comércio ... aos trinta e quatro [pro] faliu seu segundo comércio aos trinta e seis (...) aos quarenta [pro] foi  / perdeu para deputado estadual ... aos quarenta e quatro [pro] perdeu pra deputado federal (...) ... aos cinqüenta e oito [pro] perdeu outra vez pra deputado federal ... aos sessenta [pro] foi eleito presidente dos Estados Unidos e [pro] foi ... o mais importante presidente que foi .. o Lincoln
9. Conclusão da segunda parte

Os falantes, no PB falado contemporâneo, em geral preferem o sujeito realizado em detrimento do sujeito nulo. Aparentemente (mas não descartamos a necessidade de estudos com corpora melhor constituídos), este fenômeno é estável no português atual.

Dos diversos fatores aqui abordados, destacamos a importância das sentenças coordenadas como favorecedoras do apagamento do sujeito. Tal fator merece ser melhor estudado, inclusive dentro de abordagens mais teóricas que a aqui apresentada, pois julgamos que a compreensão teórica do fenômeno contribuirá em primeiro lugar para a sua descrição sistemática, e em seguida, para a análise dos dados.
 

CONCLUSÃO

As análises que aqui tecemos a respeito da realização do sujeito no português não têm a intenção de dar conta de todos os fatos, evidentemente. Buscamos fazer inicialmente uma breve comparação entre o português medieval e o português moderno, deixando de lado uma série de fatores que necessitariam ser abordados. Observamos em primeiro lugar que o corpus deve ser escolhido com muito cuidado, para não mostrar resultados que não condizem com a realidade.

A mudança do paradigma verbal do português medieval para o PB atual parece estar de fato atuando no sentido de modificar o parâmetro pro-drop do PB. A comparação, apontada na Introdução, com outras línguas românicas (destacando-se o vêneto) e línguas não-pro-drop, como o inglês, pode esclarecer diversos pontos ainda obscuros da sintaxe brasileira.

Na análise do corpus de língua falada, tivemos a intenção de mostrar como o funcionamento da língua pode influir na escolha entre diversas variantes (no caso, o sujeito realizado/nulo, ou mesmo o sujeito lexical/pronominal/nulo). Diversos fatores apontados merecem mais reflexões teóricas, como o caso das sentenças coordenadas. Mas julgamos que conseguimos apontar fatores importantes, e que, talvez num corpus mais amplo, possam se revelar ainda mais pertinentes.

Concluímos este trabalho com o desejo de que cada vez mais estudos sejam feitos sobre o sujeito, nos campos da Sintaxe gerativa, da Sociolingüística variacionista, da Lingüística funcional e da Lingüística Histórica.
 

NOTES:


 

Referências bibliográficas

Corpora utilizados:



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© Zdravko Batzarov